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"Dá-me o Telemóvel, Já!" PDF Imprimir e-mail

Artigo de : Tito de Morais / Abril de 2008

Fonte: miudossegurosna.net

Não tinha intenção de escrever sobre o caso da professora, da aluna e do telemóvel que dominou as manchetes e os noticiários em Portugal durante a Páscoa. Consegui resistir, mas a coincidência no tempo de uma série de acontecimentos leva-me agora a escrever sobre o assunto. Eis então algumas reflexões.

Na sequência deste caso, saturei de ver o vídeo da cena. Cansei-me de ver críticas à aluna e aos alunos em geral - não só aos da turma em questão, não só ao que gravou a cena e a publicou no YouTube, mas aos estudantes de hoje - aos pais da aluna e aos pais em geral, à professora e aos professores em geral, à escola e as escolas em geral. A preocupação geral era a de apontar o dedo a alguém. A culpa é sempre dos outros. Assim é tão fácil. Todos temos filhos lindos incapazes de cometer tais despautérios! Esquecemo-nos que, em grupo, os nossos filhos podem adoptar comportamentos que nunca lhes passaria pela cabeça adoptar. No entanto, como dizia, e com razão, um pai que me pediu ajuda pelo facto da sua esposa, uma professora, estar a ser difamada e injuriada por um aluno num fórum de cariz pornográfico, "esperamos que os nossos filhos não tenham comportamentos que nos envergonhem". Por outro lado, dizer "se fosse comigo, eu fazia assim ou fazia assado" é também tão fácil, esquecendo que, sem a formação adequada, só colocados perante situações idênticas é que ficamos de facto a saber como reagiríamos aquela cena. Enfim, para quem como eu há muito tempo ando a alertar para a necessidade de darmos atenção à forma como as tecnologias são usadas por alguns jovens, em meios escolar mas não só, fico desencantado e tenho dificuldade em perceber como as pessoas ficam espantadas. É que afinal, este foi o típico caso em que "o rei vai nu"! A única novidade deste caso foi o facto do vídeo ter sido detectado e explorado até mais não pelos órgãos de comunicação social. Essa foi a única novidade. Enfim, perdemo-nos a apontar o dedo e no fim, semanas depois, poucas ou nenhumas ilações dos factos tiramos. Apontando o dedo, limitamo-nos inconscientemente a espiar a nossa própria culpa colectiva. E infelizmente nada de novo sai deste caso. E eis que senão, leio uma crónica de Rodrigues Guedes de Carvalho na revista Única, distribuída com o Expresso do dia 25 de Abril.

"O Ovo e a Galinha"


A propósito deste caso, na sua crónica (infelizmente sem versão online) Rodrigo Guedes de Carvalho faz referência a um anúncio radiofónico a uma rede de telemóveis que "passa esponja sobre a essência do problema", questionando-se sobre "esta publicidade limita-se a ler o mundo ou é esta publicidade que ajuda a transformar os adolescentes (cria tendências) em pequenas amostras de bestialidade?". Infelizmente, inclino-me para esta última e quer-me parece que o autor também, quando escreve que "a miúda do Carolina Michaelis não fez mais do que seguir a cartilha de toda uma geração" e conclui fazendo referência a um "outro anúncio que nos diz que o importante é a saúde, depois o dinheiro e finalmente (vá lá) o amor?".

 

"Olha Que Contado, Ninguém Acredita!"


A reflexão de Rodrigo Guedes de Carvalho recorda-me um artigo que escrevi um antes deste caso, "Telemóveis, Segurança & Responsabilidade Social", a propósito deste anúncio da Vodafone Portugal (o referido no artigo foi removido, mas persiste este) e deste outro de uma outra subsidiária da Vodafone. Apesar de ter escrito, sobre o assunto, o caso passou despercebido e sem referências na comunicação social. Como passou também a campanha dos Gato Fedorento para a PT, com as chamadas para o Sr. Coelho, etc.


As Crianças Vêm, as Crianças Fazem


O facto de figuras públicas como Rodrigues Guedes de Carvalho abordarem este assunto não deve refrear o cidadão comum de fazer o mesmo, antes pelo contrário. Considero por isso que se deve aproveitar a visibilidade dada ao assunto por uma figura pública para apoiar e promover a discussão do assunto. E a importância do mesmo é dada não só pelas referências acima, mas é excelentemente ilustrada por um outro anúncio publicitário. Só que este é excelente. Ilustrando de forma soberba a importância da educação pelo exemplo que, decididamente alguns anúncios não dão.

 

Quadro de Honra


Na sequência do caso da professora, da aluna e do telemóvel, cujo vídeo foi exibido até à exaustão nas televisões nacionais, durante algumas semanas assistiu-se à diabolização da escola, dos professores, dos estudantes e dos pais, em tudo quanto era órgão de comunicação social. Manifestando a intenção de "ver o mundo e o país pela positiva", o Rádio Clube Português lançou a iniciativa "Quadro de Honra - Dá Voz às Tuas Imagens". Para tal, a estação radiofónica apela aos estudantes a pegarem nos seus telemóveis e na sua criatividade para mostrarem o que há de melhor nas suas escolas. Os vídeos - máximo de 90 segundos de duração, 5MB de tamanho e nos formatos .mpeg, .mov, .avi ou .wmv - deverão ser enviados por email até 9 de Maio de 2008, juntamente com a indicação do nome do autor, idade, ano, escola, localidade e uma pequena descrição do vídeo. A iniciativa é aberta a estudantes do 7º ao 12º ano de todas as escolas do país e prevê a atribuição de uma viagem a uma cidade do conhecimento ao autor do vídeo vencedor. Para ajudar à promoção da iniciativa, o Rádio Clube Português disponibiliza um cartaz para afixação nas escolas. A iniciativa conta ainda com o apoio do Dr. Daniel Sampaio que gravou um vídeo onde apela à participação dos estudantes.

A iniciativa parece-me extremamente louvável, sendo ainda uma oportunidade de se demonstrar como os telemóveis podem ter uma utilização positiva. Por outro lado, é uma iniciativa que permite também aos pais incentivarem os filhos à sua participação. No entanto, a este nível, para evitar experiências desagradáveis e uma vez que há escolas que vedam a utilização do telemóvel no espaço escolar e não apenas na sala de aula, é importante que os pais incentivem os filhos a solicitar autorização aos professores para a captação de imagens, algo que não é referido no material que promove a iniciativa. A terminar, apenas a reflexão que para além das crianças, dos jovens, dos pais e dos professores, também os jornalistas e os publicitários precisam de formação no domínio da utilização ética, responsável e segura das tecnologias de informação e comunicação.

 

Por: Tito de Morais, fundador de MiudosSegurosNa.Net, um projecto que ajuda Famílias, Escolas e Comunidades a promover a segurança online de crianças e jovens

 
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